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A vida pela janelaVolume 1ArtePalavraREVISTA


xpedienteAs ilustrações da capa e do verso da Revista Arte e Palavra foram criadas e cedidas pelo artista plástico Juarez Machado.Juarez Machado é pintor, escultor, desenhista, caricaturista, ilustrador e cartunista. É considerado um dos mais brilhantes artistas plásticos brasileiros.Saiba mais em:http://www.institutojuarezmachado.com.brDireção Geral - Desembargador André Gustavo Corrêa de Andrade Realização - Assessoria de Comunicação Institucional da EMERJ – ASCOMEditora e Coordenadora ASCOM - Aline MüllerProjeto Gráfico e Diagramação - Georgia KitsosApoio - Cerimonial EMERJSiléa Macieira – coordenadoraRevisão - Serviço de Revisão de Textos da EMERJRevista Digital - www.emerj.tjrj.jus.br


à José Calvo GonzálezO volume I da Revista Arte e Palavraé dedicado ao professor José Calvo González. Catedrático de Filosofia do Direito da Universidade de Málaga, foi idealizador da Cultura Literária do Direito. Através de sua vasta produção teórica e de inúmeras conferências em vários países, tornou-se um ícone do movimento Direito e Literatura. Esteve na EMERJ, em maio de 2019, onde proferiu brilhante palestra sobre “Os Fatos na Hermenêutica da Decisão”.Uma homenagem“Sou um contador de histórias. E o fogo em torno do qual nos sentamos se chama processo”1José Calvo González (in memoriam 1956-2020)1 CALVO, José. La controversia fáctica. Contribución al estudio de la quaestio facti desde una perspectiva narrativista del Derecho p 388-389.


umarioApresentaçãoAndré Andrade 6 No Direito não há perdão José Roberto de Castro Neves 8À flor da peleFrancisco Daudt 10FotografiasVera Lage 14O Sim e o Não Ayres Britto 22Pelas Esquinas da JustiçaEsquina IJéssicaCristina Tereza Gaulia 24Como se defender da estupidez humanaAprendi com Gulliver!Lenio Streck 28Para ClariceAndréa Pachá 34Sonho de Justiça Caetano Ernesto da Fonseca Costa 38AngolaAdriana Ramos de Mello 40IsolamentoBianca Ramoneda 42Para a alegria voltarWagner Cinelli 46MariaGabriela Zimmer 48


FotografiasManoela Mendes Gonçalves 52Da minha janela, vejo...Carlos Roberto Barbosa Moreira 58A Grande AngularLúcia Frota Pestana de Aguiar 62O Kraken e o CronovisorHélio Saboya 64Entre Promessas Pré-pandêmicas e Despachos DivinosMarion Bach 68A Silhueta da Tragédia Murilo Kieling 72Super MariaAna Carinhanha 76A arte de ver a vida pela janelaSérgio Branco 80ObrasBel Barcellos 84Admirável Novo Mundo Luiz Eduardo de Castro Neves 88De Rio de Janeiro, Praça XV e roda de sambaIzabel Nuñes 90A PrincesinhaSiléa Macieira 96Frinchas da vidaClaudia Roberta Sampaio 100FotografiasCarolina T. de Melo Franco 102


presentacaoA Revista Arte e Palavra foi concebida como um canal de divulgação de crônicas, ensaios, poesias, letras de música, desenhos, gravuras, fotografias e outras formas de manifestação artístico-literárias.Pode-se indagar o porquê da publicação dessas formas de expressão em uma escola judiciária, cuja finalidade é a formação e o aperfeiçoamento de magistradas e magistrados. A resposta é, para mim, intuitiva. Direito, Arte e Literatura constituem atividades intelectuais que se entrelaçam e compõem aquilo que nos identifica como seres humanos: a Cultura.O entrecruzamento desses diversos saberes é encontrado desde os primeiros escritos de que se tem notícia. A tragédia grega Antígona (442 a.C.), de Sófocles, traz o embate entre o Direito Natural, de inspiração divina, que impelia Antígona a sepultar o cadáver de seu irmão Polinices, e o Direito estabelecido pelo governante, na figura de Creonte, que decidira que o corpo de um inimigo da pátria não poderia receber as honrarias tradicionais dos funerais, devendo permanecer insepulto.Shakespeare, em suas obras, evoca vários temas relacionados com o direito e a justiça. O Mercador de Veneza (1596) suscita reflexões sobre o preconceito e a discriminação, o princípio pacta sunt servanda, o abuso de direito e os limites da interpretação.O livro Crime e Castigo (1866), de Dostoiévski, narrando um crime de homicídio pela perspectiva de seu perpetrador – o protagonista Raskólnikov –, faz pensar sobre culpa, livre arbítrio, responsabilidade e pena como expiação.A leitura de bons livros nos humaniza e nos enleva, tocando-nos diretamente a alma. Eles nos presenteiam com imagens, DesembargadorAndré AndradeDiretor-Geral da EMERJ


metáforas, analogias e uma infinidade de figuras de linguagem, de que nos apropriamos para uso em nossa comunicação.A música, por seu turno, constitui uma das formas mais sublimes de expressão do pensamento e das emoções. Ela, muitas vezes, nos entristece, consola, alivia, alegra, inspira, motiva e ajuda a seguir adiante. O poder e a importância da música foram sintetizados por Nietzsche, em célebre aforismo: “Sem a música, a vida seria um erro.”A Literatura e as artes têm iluminado o exercício da atividade jurídica. Muitos são os estudiosos do direito que têm encontrado nos grandes livros, na poesia, na música e nas artes em geral inspiração para o desenvolvimento de suas teorias e ideias. Essa percepção levou à criação do movimento Direito e Literatura, iniciado no Século XX. Não por outra razão, a Escola criou o “Fórum Permanente de Direito, Arte e Cultura”, para estimular o diálogo entre o Direito e as diversas formas de manifestação cultural. Aqui no Brasil, temos notáveis representantes desse movimento, alguns dos quais colaboraram com textos para esta Revista.A atividade dos juristas não se resume ao conhecimento das leis, da jurisprudência e da dogmática. Direito é vida. Por isso, para bem defender uma causa ou decidir uma questão jurídica não basta conhecer o mundo do direito, há que entender o mundo da vida. A Arte e a Literatura nos auxiliam imensamente nessa tarefa.Já se disse que “O jurista que é só jurista é uma pobre e triste coisa”. Ou, na expressão sempre elegante de um magistrado poeta: “Quem só sabe direito nem direito sabe.”Figura de proa desse diálogo cultural foi José Calvo González, jurista e filósofo do direito espanhol, Catedrático da Universidade de Málaga, com fortes laços com o Brasil, autor de diversos livros e artigos que fazem a interseção do Direito com a Literatura. A EMERJ teve o privilégio de, em maio de 2019, receber o Mestre para a realização de palestra, na qual discorreu sobre a coerência narrativa no Direito. A EMERJ dedica ao saudoso Professor José Calvo González o primeiro número desta publicação.Uma boa leitura a todos!


José Roberto de Castro NevesNo Direito nao ha perdaoNo Direito não há perdão. Não se ensina a ceder na faculdade. Não se forma o advogado para ter caridade do devedor. Ao contrário, seu trabalho é cobrar a dívida. Executar.Na nossa cultura, o perdão se aprende na religião. Olhar para o próximo, desenvolver a empatia, “oferecer a face” são conceitos que separam o Direito da religião.E agora? Com tantas perdas causadas pela pandemia, qual Direito vai atender à sociedade doente? 8Muitos, em função do coronavírus, não conseguem cumprir suas obrigações. Deveriam os advogados simplesmente cobrar essas dívidas, aplicando a lei dos homens?A crise que vivemos aponta para um Direito mais próximo desses valores religiosos. Neste momento, ao receber a consulta do cliente com um título vencido, o advogado deve indagar: como o devedor sofreu? Colocando-se no lugar do outro, o Direito, nesta hora, ajuda mais.


José Roberto de Castro Neves é Mestre em Direito pela University of Cambridge. Doutor em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor. Advogado. Escritor.


10Francisco Daudt da Veiga é médico psicanalista. Formado pela Faculdade de Medicina da UFRJ. É autor dos livros “A Criação Original – A teoria da mente segundo Freud”, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, “Onde foi que eu acertei – o que costuma funcionar na criação dos filhos” e “O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento”. Colunista no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo.


11Francisco Daudt da Veiga“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”(Ben Parker, tio do Homem-Aranha) A flor da pelePor causa de baixarias na noite do Leblon (e no restaurante Gero, de São Paulo), me entrevistaram para o Fantástico.As perguntas pediam um julgamento, uma condenação moral da atitude dos envolvidos. A bola estava na linha do pênalti, sem o goleiro, esperando a minha obviedade chutar.Mas a situação sociológica está gritando, todos nós somos envolvidos por ela, os nervos estão à flor da pele.Confinamento, pandemia, ameaça/negação da morte, cansaço de lidar com a dura realidade, polarização política, politização da Covid (“quem usa máscara é de esquerda”, essas coisas), rompimento


12de velhas amizades, tensão em família, excesso de convivência, ócio e vício...E a doença mundial de afirmação de superioridades morais através das redes de internet. Respondi à repórter: “Essas baixarias são tretas que saíram das telinhas para a vida real; estamos sendo treinados para não ouvir ninguém, apenas insultar quem não é da tribo. Não há mais argumentação, somente adjetivos e rótulos. E não é só aqui: o mundo está num surto de decadência da racionalidade”.Ela me perguntou o que podemos fazer. “Exatamente o que estamos fazendo aqui: nós temos algum poder de convencimento, você como jornalista, eu como psicanalista. Em vez de condenar, vamos afirmar que estamos no mesmo barco, que podemos praticar a conversa gentil, a diplomacia.”


13“Quem tiver poder, que o use como exemplo. Como disse o profeta, ‘gentileza gera gentileza’. Saída honrosa pacifica qualquer um. Vamos lembrar a lei de Pedro Aleixo: quando uma postura se instala no alto da cadeia de comando, ela desce em cascata até o guarda da esquina.”“No caso, ele se recusava a endossar o autoritarismo do AI-5, mas o princípio vale ao reverso para um chefe de família, para um dono de restaurante, para qualquer um que tenha poder. Não adianta ficar só falando mal do presidente, vamos fazer o que está ao nosso alcance”.“Isso não serve só para o Homem-Aranha, serve para mim e para você”.


14Vera Lage é fotógrafa. Juíza do TJRJ. Formada em Direito pela Puc-Rio, com mestrado na UGF/RJ. Como fotógrafa, tem experiências em localidades remotas como Patagônia, Atacama, Islândia, Tanzânia e Nepal. Vera busca apurar seu olhar fotográfico, as nuances da luz e das texturas, explorando as diferentes paisagens urbanas e naturais do nosso planeta.Site: www.veralage.com


15Vera Lage asfiFotograNEPAL


16RIO DE JANEIRO


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18PARÁ


19PARÁ


20PARÁ


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22O pincel e a tela nasceram um para o outro,Assim como a caneta e o papel,O lago e a lua cheia, As mãos dos poetas e a cintura das palavras. - Separá-los é coisa de dar pena. Mas não nasceram um para o outro o tornozelo e a espora,A mão e a chibata,O dedo e o gatilho,O pescoço e a canga.Separá-los é coisa de justiça.Ayres Britto O Sim e o Nao


23Ayres Brittoé jurista, advogado, magistrado, professor e poeta. Foi ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), tendo sido presidente daquela corte e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). É professor nos cursos de mestrado e doutorado do Centro Universitário de Brasília (UNICEUB) e presidente do Centro Brasileiro de Estudos Constitucionais. É autor de diversas obras jurídicas e de poesia. Conferencista requisitado, é membro da Academia Brasileira de Letras Jurídicas e da Academia Sergipana de Letras.


24Cristina Tereza Gaulia é desembargadora do TJRJ, Mestre em Direito pela Universidade Estácio de Sá, Doutora em Direito pela Universidade Veiga de Almeida, presidente do Fórum Permanente de Estudos Constitucionais da EMERJ, coordenadora do Projeto Justiça Itinerante, editora-chefe da Revista Direito em Movimento, escritora e professora.


25PELAS ESQUINAS DA JUSTICA1Esquina IJessicaCristina GauliaMuito magra, virou-se de costas e mostrou, sem intenção qualquer que fosse, os ossos que saltavam de ambos os lados. E no meio, o Angelus, como que saído das telas do suíço, lá estava o anjo da história jessicaniana.“Os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas”, como descreveu Benjamin.2No rosto trazia a cor mesclada da fome e da dor do soco. O amarelo e o arroxeado 1 Esta crônica integra a coletânea “Pelas esquinas da Justiça” a ser em breve publicada pela autora.2 Walter Benjamin (1892-1940) descreve assim a pintura do suíço Paulo Klee, chamada Angelus Novus, no livro “O anjo da história.”


26se sobrepunham sem fronteiras definidas. No colo o bebê que sorria e brincava com o bico do seio da menina mãe.Ela veio pelas mãos da Maria da ONG e queria saber como podia escapar. O pai morto muito cedo deixara de legado à mãe, “camelô na Uruguaiana”, cinco filhos menores.Jéssica era a do meio, mas, orgulhosa, disse: “Dôtor sou a mais guerreira!” Tinha se prostituído cedo, mas isso não lhe trazia qualquer culpa ou desconforto, antes, vaidade: “Sempre me achei gostosa.”Mas agora tinha chegado ao limite. Seu homem, o chefe do tráfico na comunidade, ao percebê-la fragilizada pelo menino que lhe sugava a seiva até as entranhas, começou a desprezá-la. “Bateu muito, dôtor. Depois me deu pros hôme.”Tivera que voltar à prostituição, mas já agora sem qualquer lucro, e semana sim e na outra também, apanhava.


27Pediu “a Lei Maria da Penha”. Dentro do ônibus itinerante, abriu seu coração. Queria sair dali, quebrar o círculo vicioso. Ia embora e nunca mais voltaria!A casa-abrigo era uma opção possível. A única! Mas ela precisava apresentar os documentos, dela e do menino, eram essenciais na opinião do juiz.Jéssica foi apanhá-los, carregando o bebê que agora chorava. Disse que voltava antes das três da tarde, horário em que se encerrava o atendimento pelo pessoal do ônibus.Não voltou.Na semana seguinte, a Maria da ONG trouxe o menino e pediu ao juiz a guarda provisória.De Jéssica, a mulher anjo, nunca mais se ouviu falar.


28Lenio Streck é jurista, escritor, professor permanente da Unesa-RJ, professor da Unisinos RS e conferencista Emérito da EMERJ.


29Lenio StreckEscrevo aqui um breviário sobre como identificar os estúpidos, também tratados como néscios. Escrevi um texto chamado “A conspiração dos néscios e as cinco leis fundamentais da estupidez”, baseado nos livros de Mauro Mendes Dias (“O discurso da estupidez”) e Carlo Cipolla ( “Allegro, ma non tropo”). Desse texto “denúncia” , achei 1necessário apresentar “soluções”, como, no caso, critérios para identificação desse tipo de gente. Ainda jovem li nas satíricas páginas do clássico “As Viagens de Gulliver”, do irlandês Jonathan Swift, publicado em 1726, alguns traços da modernidade. Já escrevi algumas vezes sobre esta obra, que é fértil no que se trata de análises do mundo do Direito. Hoje, no entanto, a usarei para ilustrar como é fácil 1 Cf. https://www.conjur.com.br/2020-set-24/senso-incomum--conspiracao-nescios-cinco-leis-fundamentais-estupidezComo se defender da estupidez humana. Aprendi com Gulliver!


30identificar um estúpido, pois eles compunham o conselho de Lilipute. Só se pode falar sobre o que se conhece. No princípio era o verbo. As coisas estavam lá, mas ainda não tinham nome (João, I, I). Por isso, saia pelo mundo e os identifique, disse o mestre (se não disse, poderia ter dito). Se não é verdade, é bem provável, como dizem os italianos. Gulliver correu mundo e, com seus relatos, pretendia informar. Foi parar em Lilipute, terra de gente pequena, ao sobreviver a um naufrágio. Por bom comportamento, conseguiu sua liberdade. Impediu uma invasão e foi condecorado. Salvou o palácio e a vida da imperatriz, mas, ainda assim, foi acusado e condenado.Explico. O aposento da Imperatriz, no Palácio da cidade, estava em chamas. “Fogo!”, gritam os cidadãos. Gulliver, rapidamente, decidiu urinar no fogo, apagando-o e impedindo que as chamas se alastrassem. Orgulhoso, satisfeito com sua estratégia, o Capitão Lemuel Gulliver tem sua felicidade interrompida: em vez de ser reconhecido pela atitude heroica, é acusado pelo terrível crime de, acreditem, urinar em prédio público, cuja pena era capital.É formado um conselho de acusação. Seus membros eram o almirante, o tesoureiro-chefe, mais um general, um camareiro e o juiz. Eles


31 31prepararam um documento com uma série de acusações por traição e outros crimes capitais, pois, segundo eles, traição começa no coração antes de se manifestar em atos e, por essa razão, deveria Gulliver ser condenado a morte. Há algo mais estúpido do que esse julgamento?Nos dias de hoje, aponto como primeiro sinal de que você está diante de um néscio, quando o seu interlocutor diz “tenho berço” ou “tenho berço europeu”. Falou que “tem berço”, pode cravar: néscio total. Sua grandeza só existe porque é atestada. É como a glória do almirante que acabou ofuscada porque Gulliver impediu a invasão de Lilipute por blefusquianos e, a partir disso, acirrou sua perseguição ao “homem-montanha”, mobilizando tal comissão.Outro sinal: sujeito que diz “na teoria, a prática é outra”. Pode empacotar – aqui vale a lei do Barão do Itararé: de onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada. Essa estratégia tosca é usada em um dos artigos da acusação de Gulliver, segundo o qual, na teoria, ele iria, com a benção da Majestade Imperial, em missão de paz a Blefuscu, mas na prática pretendia proteger o inimigo.Em outro trecho da acusação, os membros do conselho induziram a interpretação da negociação de paz feita entre Gulliver e os embaixadores de Blefuscu como ato de traição, distorcendo o fato ocorrido a partir do


32argumento de suas intenções. Pois lhes afirmo: Nem todo néscio é negacionista. Mas todo negacionista é um néscio.A última evidência que não falha: Todos estavam totalmente convencidos da culpa de Guilliver. Isso era argumento suficiente para condená-lo a morte. Sem provas, mas por convicção. Ah, essa palavra. Essa é a mesma lógica de uma tia minha que compartilha notícia falsa de WhatsApp e ainda acha que descobriu a pólvora. Faz isso porque tem certezas e os argumentos só servem se as chancelarem. Vacinas? São uma coisa para fazer experiências com humanos. Aquecimento global? Pura invencionice, diz ela.Bom, presentes algum desses sinais acima, fuja. Assim fez Gulliver. Após receber a notícia da sua condenação, até pensou em defender-se nos tribunais, mas articulou uma fuga. Contra inimigos tão poderosos, lembrando-se do arbítrio dos juízes, sabia que não tinha garantias. Por isso, sobretudo, faça como fez Gulliver, não esqueça: corra e nem olhe para trás. Se olhar, pode virar néscio, como na destruição de Sodoma e Gomorra. A mulher de Ló, com medo de ser cancelada por Deus, fez isso. Quase ia me esquecendo! Sobre o cancelamento: mais uma forma de identificar um estúpido. O sujeito quer cancelar todo


33 33mundo do passado, todas as grandes mentes. Quer cancelar David Hume, até Voltaire, daqui a pouco Aristóteles, a Bíblia, a civilização inteira. Cancelam tudo. Menos o anacronismo. Esse tipo também acha que “As viagens de Gulliver” é um livro pueril. Reproduzem o senso comum, mas não sabem que a narrativa de Swift teve essa passagem do incêndio exterminado pela urina censurada, justamente para esmaecer seu tom de crítica e torná-la infantil. Isso em 1800.Por fim, um conselho que está na bula desta vacunanéscio: (i) sobretudo, leia bons livros; (ii) selecione seus amigos das redes sociais; muito cuidado; (iii) fuja de grupos de neocavernas (whatsapp) nos quais, depois que você postou um texto, alguém coloca uma foto de cachorro – isto é um sinal de que você está sobrando no grupo; (iv) entenda sempre que um grupo de whatsapp já, em si, é um problema; (v) de todo modo, o lado bom é que grupos de neocavernas podem ser um excelente exercício empírico acerca de sua capacidade de conviver com néscios; (vi) de todo modo, leia livros – claro, fugindo dos livros de autoajuda e quejandos; (vii) – por fim, se você por acaso tiver livros do Paulo Coelho, não os queime – isso é sinal de que você pode ser um néscio; quem sabe, vá a uma livraria e compre um livro “juvenil” como o de Swift e leia. Talvez ajude.


34O céu límpido impedia que eu adivinhasse figuras nas nuvens. Na paisagem, pessoas desprezíveis, sem máscaras e sem alma apinhadas no calçadão, me obrigaram a dar as costas para a realidade.Sentei no sofá, tentando apreender o tempo, olhando para a parede branca.Eu não acordava porque não dormia.Mal percebi quando as névoas, desaparecidas da claridade da tarde, invadiram a sala prateada pela lua.Em um cinema inesperado, animais e objetos invisíveis na imensidão azul do dia chegaram em forma de palavras, turbinadas pelo vento, como sombras, na madrugada.Andréa PacháPara Clarice


35Andréa Pachá é escritora, juíza, mestre em Direito, colunista do jornal O Globo, comentarista da CBN-Rio e presidente do Fórum Permanente de Direito, Arte e Cultura da EMERJ.


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37Às vezes solitárias. Outras em pares ou trincas, como haicais ou poesias. Um surpreendente jogo de nascimento, fusão e reconstrução de nomes e significados.Espera. Angústia. Medo. Saudade. Luto e Luta. Abraço. Desejo. Todas se juntaram, formando uma grande e nítida LIBERDADE. Em caixa alta.Invadindo a tela, um monstro disforme e tentacular pisoteava a liberdade. Para salvá-la e impedir que ele desconstruísse o tabuleiro da poesia, virei para trás, devagarinho, tentando surpreender o predador.O fantasma era a sombra de uma esperança pousada na janela. Lembrei de Clarice e sorri.Voltei para a parede a tempo de ver a esperança projetada devorar a liberdade num abraço. Voaram ambas para o mundo. Foto produzida durante a pandemia pela artista plástica Bel Barcellos


38Caetano Ernesto da Fonseca Costa é desembargador do TJRJ, presidente da 7ª Câmara Cível. Mestre em Direito e Mestre em Cidadania e Direitos Humanos: Ética e Política. Presidente do Fórum Permanente de Direitos Humanos da EMERJ, professor e escritor.


39Uma noite eu sonhei,com o justo e com a Igualdade, presente a Dignidade daquele que não ousa sonhar. De quem luta para trabalhar morar e se alimentar, e que em tempos de escravidão, onde ser Uber é a solução para não se deixar morrer, o sonho não se transforma em querer, mas apenas em sobreviver, para ter o que comer,sem tempo pra sorrir só viver e esperar morrer. Sonhei também com um magistrado, correto, honesto e honrado, que cumpre o que prometeu. Que luta pela Igualdade, com amor e solidariedade, Justiça e Alteridade, Caetano Ernesto da Fonseca Costa e que respeita o diferente porque sabe ser isso da gente que precisa do sistema,porque a vida é problema, de fome e de miséria que muito juiz ignora, porque não lhe chegou a hora da realidade da vida conhecer. Sonhei por fim com uma Justiça, mais humana e sensível, de um lugar sossegado, longe desse mundo aloprado Injusto e desequilibrado, onde possa haver mais simetria e Igualdade, e que um juiz acredite, que não quebra sua imparcialidade, se com equilíbrio e humanidade aplicar a lei com bondade!Sonho de Justica


40Lugar de contrastes e de acolhimento Sol brilhanteTerra quente e de corações fortesEmoção no olhar Choro que alegraVidas que importamVontade de ajudarSensação de missão cumpridaFazer a diferença Povo alegreVontade de voltar Amor que transcende Angola da literatura Do pensadorDe PepetelaDas rainhas Lueji e NzingaAngola da fraternidade Irmãos de almaTerra de rituais e tradiçõesAngolaAdriana Ramos de Mello


41Adriana Ramos de Mello é juíza de Direito do TJRJ. Mestre em Direito e Doutora em Direito Público e Filosofia Juridicopolítica.Presidente do Fórum Permanente de Violência Doméstica, Familiar e de Gênero da EMERJ, professora, escritora, e presidente do Núcleo de Pesquisa em Gênero, Raça e Etnia - NUPEGRE.


42Bianca Ramoneda é jornalista, escritora, atriz e poeta.


43Bianca RamonedaIsolamento


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46Diz que faz, não fazMas o que fazQuem diz que fazMas nunca fazPorque não éQue é sempre assimDiz até que foiSem nunca ter idoNão foiMas que diachoQue isso ficaFica bem ruimAh, isso não pode piorarFiga da Bahia, mangalô, patuáEspanta mau olhadoPara a alegria voltarAí este barcoPode ir pro marWagner Cinelli Para a alegria voltar * Diz que é quem não éMas por que diz?Será o Zé?O infelizQue não enxergaNem o narizO Bené será?Será que vaiNos ajudarA encontrarO que era nossoE se foi por um trizAh, isso só pode melhorarBate na madeiraCapoeira gingouVejam só, alegria voltouO barco partiuRetornou o amor*Letra de Música